Domingo, Novembro 01, 2009

Síntese da Evolução Anímica



Sexta-feira, Fevereiro 22, 2008

A Utopia do Sétimo Homem

O Homem Vitruviano de Leonardo Da Vinci


Utopia significa sonho humano de um mundo melhor, busca de um lugar perfeito onde reina a felicidade. Tudo que acontece no mundo exterior é puro pretexto para nos conduzir ao mundo interno, o reino de Manas ou da mente, onde tudo está, tudo é real e tudo tem significado e sentido definitivo e eterno. O contrário, como já dissemos, é puro pretexto e ilusão. Nosso relacionamento com o mundo, em todas as fases evolutivas, sempre foi conflituoso, contraditório, crítico e reflexivo, efeito das dificuldades biológicas e psicológicas, inquietações, medos, angústias, dúvidas e incertezas. É o processo natural de desilusão. Impossibilitados de romper esses limites, barreiras, para nós instransponíveis, apelamos para a adaptação, mecanismo maravilhoso da mente humana que nos faz suportar as mais terríveis provas do tempo presente e ainda nos projeta para as inúmeras possibilidades do tempo futuro.

No âmago do Espírito existe uma “mônada”, o princípio inteligente, uma centelha divina que vibra como marca microcósmica da Criação. Na mente humana essa mônada se manifesta como um enorme vazio existencial, acomodado no plano biológico, porém insaciável no plano psicológico. Em nosso íntimo esse vazio vibra na forma de uma insatisfação permanente, como se fosse um compromisso eterno com a nossa transformação. É a utopia da Perfeição, a busca do modelo ideal e infalível que enxergamos no Criador. Essa é a utopia do Sétimo Homem. Em todas as épocas construímos ou aderimos a utopias que despertaram em nós o interesse por uma vida diferente, promissora, contrária aos problemas das sociedades em que nos agrupamos e as limitações próprias do meio em que nascemos e nos desenvolvemos.

Na pré-história desenvolvemos a utopia da caverna permanente, refúgio ideal para a proteção do corpo, para saciar a fome, aquecer o frio e nos abrigar dos perigos da vida selvagem e da hostilidade da natureza, que naquela época nos parecia caótica. A cavernas se sucediam umas às outras porque a necessidade de sobrevivência, limitada pela inteligência primitiva e visão estreita de mundo, nos impelia ao nomadismo, numa caminhada interminável, de incerteza, em busca de uma caverna definitiva, da qual não seríamos mais expulsos.

Com o advento do fogo e da agricultura , essa utopia da caverna se ampliou para a busca do domínio territorial , símbolo milenar da riqueza alimentar e da realização social.

Nas primeiras civilizações das culturas teológicas, sobretudo no Egito, surgiu a utopia do tempo eterno e da imortalidade, reflexo do horror que tínhamos da morte do corpo e do fim da existência. As pirâmides de Gizé, símbolos exteriores dessa imortalidade era, na realidade esotérica, a metáfora da mente, cujas câmaras do tempo passado, presente e futuro, guardam os mais profundos sonhos de realização O culto aos mortos, as cerimônias funerárias, os túmulos monumentais, tudo isso representa psicologicamente a busca de respostas para os enigmas da morte. Ainda não aprendemos a driblar fisicamente a morte, mas desenvolvemos experiências psicológicas, aprendendo a aceitar os limites físicos e crer na possibilidade da existência de mundos metafísicos. Foi também nesse longo período da Antiguidade que, inspirados no espantoso avanço mental dos egípcios, que Moisés acreditou na utopia de Canaã, a terra prometida, atravessou o deserto da incerteza e conduziu seu povo para o caminho da lei e da fidelidade ao Deus Único. Essa utopia tinha como fundamento o Decálogo, dez princípios do mundo moral perfeito da cultura judaica.

Na Índia, decepcionado pelo choque dos extremos de luxo e miséria, o jovem príncipe Gautama Sidarta, o Budha, construiu a utopia do Nirvana, o supremo estado de consciência, cujo acesso seria possível pelos nove degraus da meditação e do controle do desejo. Esvaziar a mente, fugir da ilusão e entregar-se ao poder da vontade era o caminho para o mundo feliz, sem dores e decepções. Na mesma Índia, Krishna, o sábio e provável autor dos Vedas, já havia cantado nesses célebres poemas a epopéia da Criação Divina e do tempo interminável.

Na Pérsia, Zoroastro elaborou uma das primeiras utopias da regeneração, contida no Zend-Avesta, o paraíso que foi construído após uma longa batalha entre o Bem e o Mal, lugar reservado aos justos e escolhidos.

Os filósofos Lao-tsé e Confúcio, na China, criaram a utopia da Honestidade e da Paciência, poderosos sustentáculos da civilização indestrutível.

Na Grécia antiga, reduto de inúmeros filósofos e estadistas, onde imperava a razão e o pragmatismo, onde Deus se chamava Logos Spermátikos, Sócrates desafiou o sistema e a morte, falando da Pneuma, ou a possibilidade da Alma e do Mundo da Idéias, e Platão, seu discípulo mais querido, escreveu na “República” a utopia do Estado perfeito, a polis ideal.

Em Roma, provavelmente pela primeira vez, aparece a utopia de um Estado Mundial. O domínio do mundo, motivado pela ideal de força e honra, foram idealizados primeiramente no Marenostrum, o espaço geográfico conhecido e desejado na época de Cartago e, posteriormente, na política da Pax Romana, e representado na figura do Imperium, simbolizado politicamente por César. O estado Mundial Romano só não foi viabilizado por causa das limitações tecnológicas da época e, pelas contradições inevitáveis do sistema militar-escravista. Para contrapor essa pretensão do supremo poder material, surge no próprio seio da dominação romana, de forma desconcertante, a utopia da igualdade e do amor ao próximo, idealizada pelo Cristianismo. Nela um simples o rabino judeu, filho de carpinteiro, propunha a conquista do Reino de Deus, onde o braço poderoso de César jamais alcançaria. O Reino não era desse mundo e recomendava o sacrifício da própria vida, caso a idéia da imortalidade fosse colocada em xeque. Os martírios, projetados para supervalorizar a crueldade do materialismo romano, tiveram efeito contrário na mente dos expectadores dos famosos circos. O ataque dos leões e as chamas que fulminavam os corpos despertavam na mente popular o remorso, a atração e a simpatia pela Boa Nova. Roma sucumbiu.

Na Idade Média, no universo do feudalismo, ganha força a utopia do Céu, contra instabilidade das bárbaras e a opressão do senhorio, o terror das pestes e epidemias, bem como as superstições tenebrosas do fim do mundo, do inferno e do Reino de Satanás. Santo Agostinho descreve esse lugar como a Cidade de Deus, idéia que também fascina o monge Tomaso Campanella. Na Península Arábica, o profeta Mohamed unifica o seu povo através da utopia do Islã, um Estado teocrático e expansionista.

Na Renascença as utopias se multiplicam nas mãos geniais de Thomas Morus, de pintores e arquitetos italianos e holandeses. Em pleno capitalismo mercantil, no auge da Era das Navegações e Descobrimentos, a utopia se volta para o Novo Mundo.

Nos séculos 17 e 18, na Inglaterra e na França, ao criticar os desequilíbrios da sociedade de estamentos e o Estado Absolutista, os filósofos iluministas criam a utopia da Razão.

No século 19, por efeito dos desequilíbrios da Revolução Industrial, surge a utopia socialista de igualdade e harmonia, nas famosas colônias e falanstérios.

Em pleno século XX o nazi-fascismo reviveu a antiga utopia espartana da eugenia através de regimes totalitários cruéis e belicistas.

E no mundo contemporâneo, depois de uma intensa onda de destruição ambiental e aniquilamento humano das duas guerras mundiais, volta à tona a utopia da Paz e da Harmonia, antigos sonhos que agora voltam a povoar a mente humana, ainda inquieta e em busca da sua caverna permanente. São sonhos alimentados pela atuação pacifista do Mahatma Gandhi, com a utopia da Não Violência; do pastor Martin Luther King e Nelson Mandela, pela igualdade racial, pela utopia da contra-cultura dos jovens hippies do mundo inteiro, dos inúmeros conspiradores da Era de Aquário e milhões de militantes do verde e da Ecologia. A caverna não é mais um lugar físico, mas a ânsia pela perfeição é mesma, agora rumo aos ilimitados confins da consciência. É a utopia do Homem do Futuro.

O Ser e a Consciência


A Consciência é o governo do Universo. É ela quem reina e comanda a Vida, em todos os planos e dimensões que formam o Infinito. Nada escapa à sua Onisciência e Onipresença, através das leis que regulam a Natureza, em todos os lugares e mundos.

Quando passamos a perceber essa verdade em nós, iniciamos imediatamente o processo de gestão de nossas existências. Passamos a administrar os rumos que tomam as nossas vidas. Somos pequenas consciências, criadas à imagem e semelhança de uma Consciência Maior, que rege as coisas e alimenta todas as necessidades. Somos microcosmos de uma realidade macro-cósmica.

Em nós existe, em pleno funcionamento, todas as dinâmicas e rítmicas que acontecem nos múltiplos esteios da Criação. Carregamos em nós todos os seus elementos vitais: a energia, o tempo, os ciclos, as pulsações, os compassos, circunstâncias, pensamentos, emoções, vontades, escolhas, decisões e finalmente as tramas do destino. Tudo isso é o Reino da Vida, que existe dentro e fora de nós, simultaneamente.

Não é por outro motivo que todos somos, a todo instante, impulsionados pela necessidade de dominar e controlar as inúmeras forças que se movimentam ao nosso redor. Vivemos incomodados numa perturbação física e psíquica, tentando acalmar o turbilhão de inquietações íntimas e também exteriores.

Como Hércules, o filho de Zeus e Alemena, trazemos gravados em nossa memória espiritual os sinais das nossas origens divinas. Temos como metas compromissos inadiáveis, semelhantes aos Doze Trabalhos do célebre herói da mitologia grega, cuja realização representa as equações das coisas que precisamos entender, compreender e depois colocar em prática. Muitos enigmas ainda terão que ser decifrados.

Não é por outra causa também que estamos constantemente insatisfeitos, sempre em busca das coisas que consideramos inexplicáveis e incompreensíveis. Por isso sempre queremos mudar as que estão prontas e acabadas e resolver os problemas que estão, desde sempre, solucionados. Queremos ser deuses, dominar consciências, direcionar destinos alheios e contrariar a ordem natural. Enfim, queremos engolir toda a água dos oceanos e respirar toda a poeira cósmica que se espalhada pelo espaço. E ainda assim continuamos entediados, insaciáveis, querendo governar o mundo, porém fugindo sempre da necessidade de governar a nós mesmos.

Esse tem sido o nosso dilema central, esquecendo-nos de que perigoso não é morrer e sim existir. Esse tem sido o nosso “ser ou não ser”, o drama de todas as consciências, a história de todas as criaturas e dos eternos mistérios da Criação.

Mas a consciência que herdamos do Criador tem sido a ferramenta principal das nossas tarefas, a bússola que vem nos guiando desde as mais rudes experiências dos reinos físicos até o nosso recente ingresso no reino psíquico. Ela é o meio que certamente nos conduzirá ao fim, que é o nosso encontro ou mergulho definitivo na Consciência Divina. Ela não é mero efeito do acaso existencial, mas o produto de uma longa jornada evolutiva pela qual passam os seres vivos, em incontáveis experiências nos pacientes laboratórios da Natureza. E a parcela de consciência humana, na escala infinita da Consciência Divina, talvez seja apenas um dos inúmeros estágios desse grande percurso. Ainda assim, ela não dá saltos, e sim queima as etapas de um complexo processo de percepção da realidade:

1º momento – a consciência critica a realidade. Não são todas as mentes que possuem capacidade crítica para realizar questionamentos, fazer comparações, estabelecer nexo sobre as coisas. Quem ingressa nessa primeira fase já está abandonando a alienação instintiva, dando os primeiros passos na intuição e penetrando na caverna do mundo interior.

2º momento – a consciência apreende a realidade. Essa apreensão é a busca da verdade através da reflexão sobre os questionamentos. É a formação do pensamento.

3º momento – a consciência significa a realidade. As reflexões são transformadas em códigos abstratos e estes precisam ser comparados de forma analógica com a realidade exterior. Essa comparação têm implicações emocionais.

4º momento – a consciência projeta a realidade. Os signos, significados, significações é o esforço empreendido para definir e conceituar a as coisas que estão ao nosso redor. As emoções se manifestam em forma de sentimentos.

5º momento – a consciência compreende a realidade. De posse de conceitos e definições nos voltamos novamente para o mundo interior. Ocorre a mudança de pensamento. O real não é compatível com o ideal, gerando incongruências. Se estivermos satisfeitos, nos acomodamos em situação de conforto emocional e desinteresse intelectual. Se insatisfeitos, continuamos a nossa busca até que a compreensão seja plena.

6º momento – a consciência age sobre a realidade. A persistência da insatisfação cria uma dinâmica de crises sucessivas. A mudança de pensamento vêm acompanhada de emoções e sentimentos em vias de transformação.

7º momento – a consciência transforma a realidade. A compreensão plena só acontece quando cessa a insatisfação e conseqüentemente a busca. Ocorreu a mudança de pensamento e também de sentimentos. As emoções decorrentes são harmoniosas. A idealidade foi transformada em realidade, até que surja uma nova crise.

A História e o destino


A sincronia do tempo biológico (existência) com o tempo psicológico (consciência)


“Qualquer que seja a duração de vossa vida, ela é completa. Sua utilidade não reside na duração e sim no emprego que lhe dais. Há quem viveu muito e não viveu. Meditais obre isso enquanto o podeis fazer, pois depende de vós, e não do número de anos, terdes vivido bastante. Imagineis então nunca chegardes ao ponto para o qual vos dirigíeis? Haverá caminho que não tenha fim?” – Michel de Montaigne


Hércules era filho de Zeus e Alemena, a rainha de Tirinto. A deusa Hera, esposa de Zeus tentou frustrar o seu nascimento, mas somente conseguiu impedir que Hércules se convertesse em rei de Tirinto retardando sua vinda ao mundo até que nasceu outro menino que herdou o trono. Hercules nasceu, mas na condição de um escravo. Precocemente se manifestou a natureza semi-divina de Hércules. Hera enviou duas serpentes ao seu berço, mas o bebê as estrangulou. Desde muito cedo aprendeu as artes marciais. Ninguém podia se opor à lança nem à flecha de Hércules, que também era um lutador sobressalente. Hera não estava disposta a perder e no momento culminante do triunfo de Hércules lhe provocou um ataque de loucura. No meio da sua aterradora amnésia, o herói matou a esposa e os filhos. Incapaz de recobrar a tranqüilidade de espírito, depois de cometer esse crime espantoso, Héracles consultou o oráculo de Apolo em Delfos. Este lhe respondeu que fosse a Tirinto e acatasse as ordens do rei Euristeu. O herói obedeceu e o monarca lhe encomendou uma série de tarefas ou trabalhos. Eram tarefas simples e complexas que se articulavam entre si e aos destinos de outras pessoas, numa verdadeira trama existencial.

Cada uma das 12 tarefas foi sendo cumprida por Hércules de acordo com as circunstâncias, conveniências e limites da sua força física e moral. Algumas ele cumpriu corretamente e com relativa facilidade; em outras teve grandes dificuldades e as cumpriu através de artifícios ardilosos, o que agravava seus débitos diante das novas tarefas. Quando pensava que havia cumprido totalmente um trabalho, decepcionava-se porque via novamente diante de si algo semelhante ao que não havia concluído satisfatoriamente. Então revoltava-se e cometia novos erros. Finalmente Hércules defrontou-se com o 12º trabalho, que era tirar Cerbero dos infernos, o cão de três cabeças. Ao finalizar com êxito esta tarefa, o herói venceu Hades – rei dos mortos – e se tornou imortal.

Mas Hércules ainda tinha que viver parte da vida e sofreu novos ataques de Hera. Ela seduziu Djanira, a segunda esposa do herói, que o envenenou acreditando que lhe dava um remédio.

Transpondo esse relato mitológico para a esfera da interpretação objetiva podemos ter uma compreensão mais significativa do mito:

Hércules simboliza o Ser Consciente, “filho” de Deus, criado simples e ignorante; a perfeição relativa.

Hera simboliza o destino, o Programa Existencial da individualidade, a sua constante busca do tempo futuro e ao mesmo tempo a raiz dos nossos compromissos como o passado, o karma e o imperativo da lei de Ação e Reação.
O rei Euristeu representa a sua Consciência e o Dever com os compromissos e responsabilidades assumidas na pré-existência.

Os 12 trabalhos representam a História e o jogo das circunstâncias no dia-a-dia e o uso do Livre arbítrio, a síntese da evolução espiritual humana, composta pelas as provas (obstáculos, seduções) e expiações (resgates de dívidas). Mas a História é muito mais do que o relato de acontecimentos, coisas, lugares e pessoas que viveram no passado. Na verdade, ela tem muito mais a ver com o futuro e com os fatos que atualmente afetam bem de perto as nossas vidas. Ela é uma sucessão lógica de acontecimentos no tempo e no espaço, encadeados em tramas individuais e coletivas, produto de ações e reações geradas pelas atitudes humanas. No grande tempo de longa duração da História cada um de nós possui um fragmento pessoal de realidade, um tempo individual e um cenário para atuação, delimitados pelo ciclo biológico do corpo e pelas circunstâncias sociais nas quais nos envolvemos. O tempo existencial a ser equacionado varia de pessoa para pessoa, mas, em média, dura entre 70 e 80 anos, o suficiente para a realização de experiências necessárias ao nosso padrão moral e de inteligência.

Existe na Natureza Divina uma relação proporcional entre o Macrocosmos e o microcosmos, como contata-se na relação natural entre a semente e a Árvore . Assim como o Ser humano é o micro e o Criador é o Macro, o corpo físico é o micro e o Universo e o Macro, podemos dizer também que o dia está para a Existência assim como a existência está para a Eternidade. As experiências que realizamos nos segundos e minutos são simulações e treinamentos para unidades maiores e sucessivas do tempo existencial e vivencial. São nos inúmeros minutos que aprendemos e realizamos as coisas importantes do dia. São nos múltiplos dias que entendemos as coisas importantes da existência e assim sucessivamente. São nas diversas existências que compreendemos as coisas essenciais da vivência ou da Eternidade.

O Relógio Existencial possui quatro momentos que coincidem perfeitamente com as fases do ciclo biológico do corpo. Ele é a exteriorização da Bússola Eterna da Consciência. Enquanto o primeiro funciona no tempo absoluto, em sentido horário, medido pelos dias, horas, anos, até o limite da morte física, a segunda funciona no sentido inverso da introspecção, medida nos graus do tempo relativo, sem limites. Um marca a extroversão do ser no plano objetivo; a outra marca a sua introspecção no plano subjetivo da mente. Um define o status-quo da encarnação biológica e a outra aponta o rumo da ressurreição psicológica. No tempo de uma existência na carne, o relógio existencial e a bússola consciencial se interpenetram e formam um terceiro marcador, que é o ciclo Dia-e-Noite, de 24 horas divididas também em quatros momentos nos quais ora estamos em atividade biológica, ora em atividade psicológica, seja em vigília, seja durante o sono. O Dia-e-Noite é a síntese e a transição do tempo absoluto do corpo biológico existencial para o tempo relativo da consciência e da eternidade. É no Dia-e-Noite que realizamos as experiências fundamentais para o desenvolvimento mais amplo da mente em seus três campos vivenciais – o Pensamento, a Ação e o Sentimento.

Em cada fase do nosso tempo pessoal diário acontecem pequenos fatos corriqueiros, importantes para a pequena mente existencial, limitada pelo cérebro; mas também os fatos essenciais, muito significativos para a mente maior, da consciência e da Vida. Esses fatos nos estimulam a pensar, agir e sentir as experiências e cada uma dessas operações se desenvolvem na medida que o corpo também amplia a sua manifestação no meio ambiente. Nossas existências se resumem num mecanismo constante de fazer escolhas e tomar decisões, desde a mais simples, como tomar um copo de água, até as mais complexas, que causam grandes desgastes emocionais. Diante dos fatos somos forçados a escolher, a tomar um dos caminhos que se abrem aos nossos olhos, mesmo que seja a opção do recuo ou opção da fuga. Toda escolha gera uma experiência e esta desencadeia em nós um irreversível processo de transformação mental, mesmo quando não aceitamos as conseqüências da escolha que fizemos; podemos até ficar estacionados numa determinada situação, mas já fomos afetados inevitavelmente pela mudança. É isso que se chama “erraticidade”, uma situação de expectativa e ansiedade na qual o Ser já foi atingido pela necessidade de mudança, mas ainda não compreendeu o que se passa com ele e fica adiando ou planejando uma nova experiência.

Tudo indica que existimos num campo universal de atuação onde estamos sujeitos a leis que fogem do nosso controle individual. Leis como a de Ação e Reação e a de Evolução, só para citar as mais conhecidas, estabelecem limites em nossas escolhas; possuímos o livre-arbítrio, mas na maioria dos casos, ele está limitado e restrito a determinadas ações. Isso parece absurdo, mas a lógica desse limite está numa ordem maior que impede que as nossas decisões causem desequilíbrios além dos parâmetros da normalidade. Entendemos, então, que o livre-arbítrio é uma faculdade proporcional ao grau de maturidade do Ser. Na sua fase humana e individualista, em mundos materiais imperfeitos, naturalmente sofre as limitações necessárias a manutenção da ordem geral. Na Terra ele ainda é o veículo do egoísmo e do personalismo, daí os distúrbios mentais que o aprisionam temporariamente como efeito dos abusos. Em mundos mais perfeitos sua manifestação provavelmente se amplia porque o Ser age sempre no sentido do bem estar da coletividade. Alguns autores chegam mesmo a especular que o livre-arbítrio se torna uma faculdade desnecessária quando o Ser se integra perfeitamente na harmonia universal e passa a cooperar em graus cada vez mais complexos da Criação Divina.

Em nosso caso, as escolhas ainda são muito afetadas pelas provas e expiações. Não podemos avançar em determinadas linhas de opção porque criamos obstáculos de ação que somente podem ser ultrapassados quando dali forem removidos os entulhos gerados pelos nossos gestos de destruição. São naturalmente entulhos mentais, experiências negativas antigas que nos prendem à condição estacionária da erraticidade, onde podemos tanto fazer escolhas, cometer erros, como também repetir experiências para reaprender com os fracassos. Aqui se vê claramente o limite entre o livre-arbítrio e o determinismo. Na erraticidade escolhemos com clareza e convicção, porque estamos conscientes da situação e operamos com a mente maior. Quando encarnados, estaremos operando subjetivamente com a mente reduzida, sem memória objetiva. Seremos “atraídos” e “empurrados” para situações onde as escolhas e decisões sofrem as influências naturais dos acontecimentos. Poderemos recuar e desviar dos nossos caminhos, mas, ainda assim, teremos que suportar a sedução das circunstâncias ou o imperativo das reações “cármicas”.

Dessa forma, estamos ainda mergulhados no plano da Existência, restrito, incompleto, parcial e confuso, por causa multiplicidade de existências e personalidades. Nele estamos construindo parcialmente o nosso Eu, a nossa História, participando com o nosso tempo individual, interagindo com a Família, a Cidade, o País e a Humanidade. Mas, num plano mais amplo, que é a Vida Integral, ainda estamos atrelados a um Destino, que é um caminho ideal. Ainda não possuímos maturidade emocional e inteligência suficientes para fugirmos desse destino e exercer com plenitude o livre-arbítrio. Por isso, diante das crises existenciais, sempre nos colocamos e nos sentimos divididos entre a probabilidade e a fatalidade, entre a relatividade do tempo metafísico e o absolutismo do tempo físico e biológico. Enfim, estamos entre a liberdade e o limite. A primeira somente deixará de ser um ideal quando o segundo deixar de ser real. Quando nos livrarmos desses limites teremos uma sensação real de liberdade, sem angústia, sem ansiedade. O tempo será apenas uma sensação realizadora, sem interferência incômoda do passado e sem o medo do futuro. O passado não será mais nostalgia, o presente não será fantasia nem o futuro será visto como ideologia. Quando tudo isso for superado estaremos passando das múltiplas existências para a Vida única. Isso é o que os Seres Superiores chamam de Felicidade ou Plenitude, uma realidade comum nos mundos mais perfeitos e que na Terra é inconstante e só ocorre em alguns momentos.

Mas a nossa atual felicidade, relativa e parcial, tem uma razão de ser; tem a ver com o nosso estado de espírito, que também flutua na perfeição relativa ou potencial de perfectibilidade. Ainda não possuímos maturidade suficiente para sermos felizes. Essa questão é bem fácil de entender, mas nem sempre é fácil de compreender: se fôssemos transportados a mundo onde a felicidade plena é uma realidade coletiva não suportaríamos tal situação por causa da interferência dos conflitos íntimos que ainda não foram solucionamos e que ainda nos causa a instabilidade emocional. Pensamos que é fácil viver num mundo feliz quando ainda não nos sentimos felizes. Mas o processo natural é bem diferente e altamente dialético. Para atingirmos a felicidade integral temos que nos adaptar gradualmente através do desmonte dos conflitos e dos efeitos emocionais negativos que eles nos causam. Em resumo, a regra é a seguinte: temos que aprender a ser felizes nas situações de infelicidade. É como aprender a respirar dentro da água; no começo ficamos nos debatendo, aflitos, agonizados, nos contorcendo em forma de desespero. Depois vamos percebendo que não é possível lutar contra a natureza; paramos de tentar respirar bruscamente, ficamos mais calmos, passamos a olhar o que se passa ao nosso redor; não conseguimos respirar, mas já vislumbramos por alguns segundos a paisagem que nos parecia hostil e para a qual nem abríamos os olhos. Com o tempo vamos aumentando os períodos nos quais prendemos a respiração e nos quais exercitamos a calma e a paciência. Essa é, de forma análoga, a chave da passagem das Existências para a Vida, da História para o Destino, da Fatalidade para a Probabilidade, da Encarnação para a Ressurreição, do Reino Animal Biológico para o Reino Hominal Psicológico, do Reino de César para o Reino de Deus e, finalmente, da alienação para a Consciência.

Como já dissemos, essa é uma temática que podemos entender facilmente, mesmo porque as filosofias espiritualistas explicam tais questões com muita didática e objetividade. Mas resta o problema da compreensão. Nem tudo que entendemos objetivamente com o intelecto repercute com clareza no mundo íntimo da subjetividade e que é o verdadeiro universo da experiência. Uma coisa é a teoria, outra coisa é a prática. É um conceito tão antigo que hoje soa aos ouvidos mais exigentes como um “chavão”, um “clichê”, gasto pelo uso retórico, mas que continua tendo seu significado de verdade filosófica. Como diz a música, “Não adianta fingir, nem mentir pra si mesmo...” Podemos até estacionar para discutir milhares de aspectos que as nossas doutrina oferecem sobre a Vida e o Universo, podemos permanecer por longos períodos tentando solucionar problemas do mundo fenomenal, que já “estão desde sempre solucionados por Deus”, para os quais basta aplicar o raciocínio. Já entendemos o fenômeno da morte biológica, já solucionamos o problema objetivo da imortalidade. Esse enigma de Tomé já foi solucionado por diversos pesquisadores da alma, através da ciência e da tecnologia sensitiva do entendimento das leis naturais. Mas ainda falta compreender o enigma de Nicodemos, que é fenômeno da morte do Espírito. Esse enigma os mestres também decifraram, não para nós, mas para eles mesmos. Deixaram pistas das suas experiências pessoais, mas não puderam ir muito além disso, pois o mundo interior de cada um deles é diferente do nosso, têm o seu próprio caminho a percorrer. O contato teórico com essas verdade básicas são os primeiros passos para entender o problema, mas a compreensão depende do mergulho psicológico no enigma. No aspecto teórico entendemos perfeitamente o problema do ser, do destino e da dor. Mas isso ainda deixa um vácuo, uma sensação de vazio de compreensão emocional.

A verdadeira inteligência não é o raciocínio, mas a capacidade de fazer escolhas. Muitas vezes pessoas pouco inteligentes do ponto de vista racional fazem escolhas certas usando a intuição. Já algumas pessoas tidas como inteligentes freqüentemente desprezam a intuição, usam a razão acreditando estarem seguros em suas decisões para mergulharem em grandes fracassos. Pior ainda, não aceitam as conseqüências de suas decisões e agravam ainda mais os efeitos das suas ações. A arte da escolha, talvez seja esse o segredo do livre-arbítrio, das suas possibilidades e dos seus limites.

Portanto, a evolução espiritual do ser humano é impulsionada pelo livre-arbítrio, cuja regra universal é “A Semeadura é livre, mas a colheita é obrigatória”.

Durante a nossa evolução em mundos inferiores a maioria das nossas experiências se realiza no campo do mal e da imperfeição, o que é normal até certo ponto, pois é a fase de defesa e sobrevivência no meio hostil . O Bem e a perfeição aparecem lentamente, quando passamos a ter percepção de nós mesmos, como ser semelhante ao outro. O limite do livre-arbítrio é a nossa capacidade de distinguir o Bem e o mal. Quando ultrapassamos esse limite esbarramos na lei de causa e efeito (ação e reação) e temos que assumir responsabilidades pelos nossos atos.
As responsabilidades e os choques de retorno geralmente nos levam a duas atitudes e caminhos: estagnação, pelo orgulho ferido e a revolta; e o progresso, pela humildade e a resignação.

Segundo as escolas espiritualistas clássicas a predominância do mal em nosso planeta é devido à concentração de seres rebeldes e reincidentes no erro, a maioria em situação de provas e expiações. As ações maléficas de alta destruição acontecem pela afinidade e conúbio psíquico de seres muito inteligentes, porém, sóciopatas, de sentimentos doentes, que não aceitam seus choques de retorno e não se conformam como fracasso de suas provas e revoltados com as expiações que sofrem na Terra. Disso surgiu provavelmente o mito de Satã (anjos caídos). Mesmo assim, no plano coletivo, essas ações são úteis no despertamento para o Bem e para a regeneração, através dos resgates de dívidas cármicas.

O ódio e a revolta são as principais marcas do mal, que em mundos como a Terra torna-se ideologia de grupos organizados em atividade criminosas e que fazem da vingança uma lei, pela violência e brutalidade. Para neutralizar essa força maléfica não podemos jamais agir dentro do seu campo de ação e sempre fugir de ações de conivência direta ou indireta com essas atividades, com exemplificaram Jesus em sua época e o Mahatma Gandhi nos tempos modernos. Deve-se sempre agir no oposto, no Amor, que é a Lei universal mais ampla e superior.Mas quase sempre temos a falsa impressão de que a Lei do Amor é utópica, ainda muito distante nós, por causa dos nossos hábitos e instintos animais. Todos esses conceitos superiores logo caem por terra quando caímos nas contradições do dia-a-dia, típicas das nossas imperfeições. Daí vem a descrença e a desconfiança na nossa capacidade de mudar a realidade interior e o mundo que nos cerca. Por isso é necessário persistir para aprender a humildade, a mansuetude e o perdão, que são os caminhos mais acessíveis para praticarmos o Amor. A humildade é a ciência da confiança no tempo e na Justiça Divina; é saber esperar o momento certo, em atitude de resignação. Não se trata de conformismo, covardia ou burrice, mas da sabedoria em recuar com um passo para traz e depois dar muitos passos para frente. Na vida selvagem encontramos exemplos belíssimos de humildade e sabedoria quando pequenos animais se humilham, simulando estarem mortos, para desarmar os mais fortes que os perseguem. Todos que já passaram por essas experiências na vida humana afirmam que a mansuetude é o gesto humilde e também inteligente de desarmar a agressividade do outro. É o momento crítico em que, por exemplo, um homem tem que se tornar mulher, pois esta é uma inteligência típica do sexo feminino. Como já foi ensinado por um sábio espiritual: “A obediência é o consentimento da razão, a resignação é o consentimento do coração”. Para as pessoas experientes nesse terreno o perdão é capacidade de esquecer as coisas más que nos atingem, até que possamos entender o que realmente está acontecendo, bem como as razões de quem praticou esse mal. Quem não esquece o mal não consegue perdoar nem progredir. Muitas vezes as pessoas que nos fizeram mal mudam e nós não mudamos, persistindo na idéia ódio e vingança. Não podemos ficar estáticos achando que o tempo congelou para satisfazer os nossos caprichos. Podemos ficar estacionados por algum tempo, em compasso de espera, mas sempre almejando e planejando alguma mudança no futuro.

A Consciência e a Verdade



“Aos quinze anos, minha inteligência se consagrava ao estudo. Aos trinta, mantinha-me firme. Aos quarenta, não tinha dúvidas. Aos cinqüenta, conhecia os decretos o Céu. Aos sessenta, o meu ouvido era um órgão obediente para a recepção da verdade. Aos setenta, podia fazer o que me desejasse o coração sem transgredir o que era justo”. – Confúcio (Kongtzeu)


Duas coisas predominam e todo o Universo: a Consciência – que é Deus e os seres criados à sua imagem e semelhança; e a Lei, que é a vontade de Deus governando os seres e a Natureza. A Lei significa a ordem, o equilíbrio, a harmonia. A Consciência significa inteligência, pensamento, ação, emoção, realização, auto-controle, responsabilidade e convivência. O contrário da Lei é o caos, o mal, a escuridão, o medo e a ignorância, a incerteza, a insegurança e o sofrimento. O contrário da Consciência é a alienação e a loucura.
Quando a Lei e a Consciência não se chocam e andam juntas significam sempre o Bem, a Luz, a fé, a confiança, a sabedoria, a resignação, a tranqüilidade, a confiança e a felicidade. A união da Lei com a Consciência resulta no conhecimento gradual da Verdade. Quando conhecemos a Verdade a nossa vida se transforma incessantemente. A Verdade total ainda está bem longe do nosso alcance: ainda não temos maturidade para conhecê-la como um todo. Por isso vamos conhecendo-a em partes. Se conhecêssemos a Verdade de uma só vez entraríamos em desequilíbrio. Por isso, assim como as crianças que aprendem a andar por si próprias, vamos dando passos lentos, até adquirirmos segurança para pisarmos nesse terreno, para nós ainda tão assustador e inseguro.
Em várias épocas Deus permitiu a manifestação na Terra, e em muitos outros mundos físicos, de seres sábios para mostrar a Verdade aos homens. Mostraram muitas coisas verdadeiras, mas não puderam mostrar tudo por completo. Krishna e Buda na Índia, Zoroastro na Pérsia, Lao-tsé , Fo-Hi e Confúcio (Kong-Teseu) na China, Sócrates na Grécia, Moisés e Jesus na Palestina. Todos eram legisladores morais e ampliadores da Consciência humana.
Todos eles falavam da Lei e da necessidade de praticarmos essa lei desenvolvendo a Consciência. Krishna e Buda ensinavam: amem os seres da Natureza e controlem os desejos; Moisés alertava: respeitem a Deus não matando e não roubando; Os mestres da China recomendavam: Cultivem a paciência e a bondade; Zoroastro explicava a importância do livre-arbítrio falando da luta constante entre o Bem e o mal; Sócrates refletia: sei que nada sei e recomendava: conhece-te a ti mesmo; Jesus pedia: sejam humildes, perdoem seus inimigos. Este, como o último grande sábio que se manifestou em nosso planeta, tinha plena consciência de sua responsabilidade e do momento histórico que estava inaugurando para a Humanidade: “Não pensei que vim destruir a lei ou destruir os profetas; eu não vim destruí-los, mas dar-lhes cumprimento; porque eu vos digo que o céu e a Terra passarão antes que tudo o que está na Lei não seja cumprido perfeitamente, até um único jota e um só ponto”.
Quando falavam da Consciência esses sábios convidavam todos para conhecer as maravilhas do nosso mundo interior, que uns chamavam de Nirvana, de Plenitude ou ainda o Reino de Deus. Uma Consciência é a prova viva da existência de Deus, sua própria imagem e semelhança. A Consciência não pode jamais ignorar a Lei ou fugir de si mesmo agredindo sua natureza espiritual divina. A Lei diz que somos todos iguais em Espírito, na origem, na raiz, que é a nossa Consciência. Somos diferentes no pensar, no agir e no sentir porque temos a liberdade de escolha dos caminhos que vamos percorrer. Mas somos iguais naquilo que queremos atingir como finalidade.
Nossas diferenças nunca devem servir de motivos de conflitos e de violência. Pelo contrário, as diferenças existem para que pratiquemos a lei da convivência, conhecendo a Verdade única do Amor Universal. Por Isso Jesus ensinava: aquele que se humilhar será exaltado, ou seja, aquele que respeitar a simplicidade e a ignorância do seu semelhante será sempre maior porque ficará com a consciência limpa e com o coração leve. Na sua enorme experiência espiritual, Jesus dizia: Vinde a mim, todos vós que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomai o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma. Porque meu jugo é suave e um fardo leve.
Quem tem a consciência limpa pelo senso de justiça e o coração leve pela humildade jamais sofre diante das dificuldades e da provas da Vida. Jesus já conhecia plenamente essa realidade do mundo interior e ensinava: Sejam inteligentes como as serpentes e simples como as pombas. A serpente é a necessidade de sobrevivência do corpo e a pomba a salvação da alma.
A humildade é o segredo para estarmos sempre quites com a Lei e paz com a nossa Consciência. Já o orgulho é a rebeldia, o egoísmo, a causa da manifestação de todos os nossos defeitos morais. Esses defeitos nos afastam da Lei, escurecem a nossa Consciência, nos tornam infelizes e derrotados. A humildade não é covardia. É preciso muita coragem e disposição para ser humilde. O orgulho é sim uma covardia, porque incentiva o ser humano a mentir para si mesmo. Quem é mais covarde: aquele se enfrenta ou aquele foge de si próprio?
A Ciência humana desconhece as origens da consciência. Opinam muitos pesquisadores especulando que ela é produto da transformação dos organismos, vendo nisso somente o fenômeno visível e exterior. Não conseguem, portanto, estabelecer uma correta e clara relação de causa e efeito. Sabem que ela existe, pois carregam dentro de si mesmo essa prova viva, mas, contraditoriamente, não têm como prova-la objetivamente, segundo os paradigmas científicos que cultuam. Tanto a Consciência como a Mente continuam sendo considerados nas academias materialistas como uma crença. Até mesmo as clássicas experiências e teorias do Dr. Sigmund Freud são incluídas neste rol. No entanto ela aí está, seja como crença, seja como fato objetivo o u subjetivo, servindo sempre como referência no esforço que fazemos para compreender e aceitar a realidade.
Como percebemos, este é o assunto que mais incomoda e fascina aqueles que sentem a necessidade de explicar as coisas e, por isso, está presente em todas a atividades nas quais os ser humano estão envolvido. É só conferirmos nos dicionários para constatar a enorme incidência de conceitos e circunstâncias em que a palavra “consciência” aparece como base nas definições filosóficas.
Mas uma coisa é certa: é indiscutível ela é a principal porta de acesso à Verdade, que todos nós buscamos ansiosamente. Trata-se de um termômetro e ao mesmo tempo uma bússola que utilizamos para navegar no imenso oceano do Desconhecido.

O Ser e o Tempo




“Mas de onde se origina ele? Por onde e para onde passa quando se mede? De onde se origina ele senão do futuro? Por onde caminha senão pelo presente? Para onde se dirige senão para o passado? Portanto, nasce naquilo que ainda não existe, atravessando aquilo que carece de dimensão para ir para aquilo que já não existe” – Santo Agostinho


A Natureza possui como marca essencial os seus ritmos, que dão vida aos fenômenos e significado para eventos. É assim que as coisas acontecem, cada qual a seu modo e com suas características próprias: na pulsação cósmica, nas estações, períodos climáticos, nas marés, nos ventos, nas perturbações telúricas, fisiológicas e sociais, nos ciclos de reprodução, migrações, etc. No aspecto humano, os ritmos tomam significados mais complexos , como os ciclos biológicos e psíquicos. Na maioria desses ritmos encontramos a presença inexorável e enigmática do tempo.
Somente os seres humanos mais evoluídos possuem a faculdade da consciência, isto a percepção de si mesmos e da realidade em que vivem. Isso acontece quando, através das inteligências, superamos os instintos e passamos a agir na solução de problemas fazendo escolhas. Sabemos que existimos e que somos parte de um sistema de vida social de muitas articulações, fazendo com que a nossa percepção e atuação sejam sempre em dois aspectos distintos: o individual, o nosso EU e a nossa personalidade; e o coletivo, que é a nossa identidade social, na família e na sociedade.
A consciência é, portanto, um fenômeno histórico, pois é a soma desse dois aspectos da percepção da realidade, o individual e o coletivo, e se amplia na medida em que o ser amadurece pelas experiências. Ao fazer essa relação de si mesmo com o mundo ao seu redor, o ser percebe o funcionamento das coisas e da sua própria constituição orgânica e psíquica. Isso acontece através da percepção do outro e do tempo ou duração das coisas. Tudo passa por um processo histórico, de causas e efeitos, e tem um tempo a ser equacionado, um início, um meio e um fim. Os animais só percebem o tempo através de coisas concretas, como os fenômenos físicos naturais: clima, o dia e noite, as luas, as estações do ano, etc. Já o ser humano vai além disso e passa a observar o tempo de forma abstrata, matematicamente, vendo inclusive a possibilidade de interferir, não na duração, mas na distribuição da sua utilidade, de acordo com a suas necessidades. Assim como há a possibilidade de intervir na Natureza, em função da produção de recursos, por exemplo, é possível fazer o mesmo com o tempo, transformando o tempo integral em períodos específicos fragmentados: tempo pessoal e tempo social : trabalho, repouso, lazer, obrigações sociais, voluntariado, etc. Tudo isso é o tempo absoluto, o todo, e também o tempo relativo, em partes, dependendo de quem e como observa; é ainda o tempo histórico, ou seja, a relação que fazemos entre o presente, o passado e o futuro. O inverso de tudo isso é a alienação, que é a condição natural dos animais irracionais, e também a recusa que muitas vezes fazemos em tomar ciência das coisas que estão acontecendo. Quando fazemos essa escolha de ignorar os fatos, estamos provocando voluntariamente a nossa alienação, o que é de certa forma uma violação da consciência. Temos a liberdade de agir dessa forma, mas pagamos um alto preço por essas decisões, pois toda ação tem uma reação correspondente, em todos os planos da vida, incluindo na vida psíquica. Isso significa que tudo é possível, mas tudo tem uma conseqüência inevitável. É por isso que a alienação deliberada é uma violência, uma espécie de suicídio da consciência, um crime contra a Natureza e a Criação Divina. Essa é a causa dos sofrimentos humanos, quase sempre gerados pelas tentativas vãs de burlarmos a realidade ou fugir de nós mesmos. Não é coincidência ou por “imperfeição da matéria” que vemos ao nosso redor milhares de seres alienados mentalmente, loucos e impedidos de liberdade de ação e raciocínio. Geralmente, nesses casos, os acidentes da Natureza são precedidos de incidentes provocados pela imaturidade humana.
Quase sempre o despertar da consciência é doloroso, sendo raros os casos em que o ser o faz espontaneamente. Isso também nos leva a refletir por que essas primeiras lições ocorrem em mundos imperfeitos e geralmente sob circunstâncias contraditórias. A transição entre o Instinto e a Consciência é que marca essas experiências recheadas de tensões e sofrimentos. Temos necessidades fundamentais e que precisam ser satisfeitas em nossos campos de percepção (psicológicas) e de atuação (biológicas e sociais): alimentação, sono, sexo, contato físico, amor, aceitação, afeição, independência, status, realização, prestígio, reconhecimento social. Tais necessidades geram uma tensão permanente, causada pela busca de alívio e finalmente a realização. Se o alívio não for possível, nos frustramos. Exatamente por termos a liberdade de escolher, e também de abusar da escolha, nas circunstâncias em nos que sentimos ameaçados na satisfação das nossas necessidades, lançamos mão do recurso das fugas e partimos para os ataques em diversos graus de comprometimento, desde os pequenos deslizes até os erros mais graves e de conseqüências drásticas. A fuga é uma opção e não uma regra, mesmo porque muitas fugas são atitudes que agravam os efeitos dos erros cometidos anteriormente. Em muitas ocasiões as fugas funcionam como alternativas temporárias, até que tenhamos maturidade para enfrentar a situação. Mas elas não podem persistir como situação permanente, pois isso afeta o processo natural de evolução do ser. Uma analogia bem simples para entender isso são os objetos que são introduzidos por acidente ou são implantados num corpo com a intenção de corrigir uma falha orgânica. É uma alternativa possível, mas, por serem estranhos ao conjunto, podem naturalmente ser rejeitados e repelidos. Assim também são as fugas que, numa determinada altura, já não são mais aceitas, pois atingiram o limite imposto pela Evolução. Se houver persistência, o ser é envolvido em situações fora do seu controle, caracterizando até um certo determinismo, forçando-o a atuar de forma consciente diante dos problemas. Isto é a expiação, o que vulgarmente se chama de “armadilhas do destino”.
Mas o despertar da consciência ocorre somente quando começamos a dialogar com o nosso “Eu”. Esse diálogo é como entrar pela primeira vez, sozinho, numa caverna escura. Para vencer o medo da escuridão temos que adquirir confiança em nós mesmos e procurar um “EU” até então desconhecido que vivia apartado da nossa realidade. Iniciamos o diálogo com perguntas de auto-reconhecimento - Quem sou Eu? De onde vim? Para onde vou? – e que são as chaves que abrem as primeiras portas da consciência, as primeiras que conseguimos visualizar, pois muitas outras ainda permanecerão ocultas e fora da nossa percepção comum. As demais portas somente serão abertas na medida em que formos compreendendo algumas verdades. A Verdade é uma só, integral, mas para os seres humanos ela ainda é parcial, fragmentada em pequenas verdades. Deus é uma Verdade integral da qual temos apenas noções e intuições, uma realidade que ainda não temos capacidade de compreender em sua totalidade. Nossa relação com a Natureza e com o Universo é semelhante: só entendemos na medida que a informações encontram um eco, o momento propício para serem reveladas, como se fosse um parto de compreensão. O momento propício é a nossa maturidade intelectual e emocional. Então, a busca de Verdade é uma forma de desenvolvimento da consciência, que acontece quando entramos num processo de conflito entre o EU exterior e o EU interior. Ora estamos voltados para as coisas do mundo interior, ora para as coisas do exterior, numa luta dialética constante na qual, em alguns momentos, encontramos pontos de equilíbrio. Nesses pontos é que ocorrem as revelações. As revelações não são a causa das mudanças que se operam em nós, mas alavancas que concretizam uma transformação que já havia sido iniciada antes. Esse é o motivo pelo qual, muitas pessoas, mesmo tendo contato direto com os fenômenos, não são afetadas pelas revelações. São frutos ainda verdes e insensíveis. Outros já um pouco mais interessados, mas ainda imaturos, quando sofrem um amadurecimento forçado, se mostram aparentemente transformados e preparados para satisfazer o apetite da Verdade, mas, por dentro, conservam-se sem o sabor essencial. Mas revelação não ocorre somente no campo religioso; ela é, antes de tudo, filosófica e também científica. A revelação mística que transformou o jovem o príncipe Sidarta Gautama num velho Budha é a mesma que transformou o jovem Newton num ícone da Física moderna. Einstein deixou um testemunho escrito de que sua teoria da relatividade e compreensão da mecânica do Universo foi produto de um sonho, sonho que segundo ele foi tão real quanto estar participando de um filme simultaneamente como ator e espectador.

O Bem e o Mal

“O mal não merece comentário em tempo algum” . Esse conhecido tema de reflexão é repleto de verdade, mas quando repercute em nosso íntimo geralmente encontra pouco eco, pois a nossa realidade cotidiana ainda é muito influenciada pela negatividade. O mal existe de forma intensa em nosso meio, predomina em nosso psiquismo e conseqüentemente retorna para o ambiente em que vivemos. O círculo é vicioso. A causa principal dessa tendência é a ignorância das leis universais e o materialismo, ou seja, a negação imortalidade e da vida espiritual futura. Esse bloqueio do ponto de vista espiritual impede o entendimento da diferença entre existir e viver e restringe a perspectiva humana aos seus limites objetivos e biológicos. A negação da vivência psicológica e da subjetividade espiritual enfatiza o mal na sua experiência, dando a impressão inversa de que o Bem é uma utopia, muitas vezes fora de cogitação. É desse desvio do ponto de vista que surgem conceitos como “os fins justificam os meios”. Somente a maturidade espiritual, adquirida pelas múltiplas existências, mesmo que o indivíduo não acredite nessa possibilidade de renascimento carnal, é que desperta o senso de justiça e a substituição gradual do mal pelo Bem. Essa substituição acontece silenciosamente nos bastidores da consciência individual, nas inúmeras experiências, simples ou marcantes, negativas ou positivas, nas quais o ser adquire novas formas de pensamento, de sentimentos e de atitudes. O livre arbítrio passa a ser utilizado com maior grau de responsabilidade e as pessoas começam a perceber que trazem consigo não somente o instinto de sobrevivência biológica, mas um algo mais, uma equação existencial para ser solucionada num curto espaço de tempo. Uma existência de apenas 70 anos deixa de ser uma simples fonte de satisfação de prazeres da carne e dos vícios mentais e torna-se um veículo de realizações para despertar de novos desafios íntimos. Uma enorme sensação de insatisfação passa a ocupar o mundo íntimo dessas pessoas e suas cogitações sobre o tempo e as conquistas mudam totalmente de rumo, caso elas decidam realmente mergulhar em i próprias. Do contrário, frustram-se.
Então, o que fazer para evitar essa predisposição que temos em valorizar mais as coisas negativas do que as positivas? Como mudar essa crença de que o mal é sempre mais forte do que o bem? Estaríamos sendo incoerentes e hipócritas, num mundo hostil como a Terra, ao negarmos o mal e cultivarmos poeticamente o bem?
É senso comum, entre os espiritualistas, que nosso planeta é um típico mundo de expiações e provas, onde predomina o mal. Estamos numa fase de transição para uma categoria supero, de regeneração, ou seja, o mal ainda existirá por algum tempo, mas não será mais predominante. Os renascimentos traumáticos e as existências tumultuadas ainda serão comuns, mas diminuirão na medida que haja uma expansão do conhecimento superior e da consciência espiritualizada. O mal ainda predomina. Tudo bem! Mas também existe a possibilidade de se praticar o bem. Aliás, este é o real significado da categoria do nosso planeta, isto é, um campo de provas, de experiências, de tentativas, portanto de inúmeras possibilidade de se realizar o Bem. Fazer o bem em mundos superiores é fácil e até redundante; pode até ter valor como aprendizagem, mas não mais como fator evolutivo essencial. Nesses lugares se faz o bem por espontaneidade e não por necessidade de recuperar o tempo perdido ou pelo resgate de faltas. Essa possibilidade de fazer o bem num campo onde predomina o mal é uma prerrogativa do livre-arbítrio; ele é o recurso natural no qual o Ser realiza escolhas e toma decisões nas situações de prova, quase sempre contraditórias e confusas. Isso faz parte do jogo evolutivo. Como dizia o filósofo estóico Epicteto, ninguém progride sem demonstrar equilíbrio diante das coisas contraditórias. É nas situações confusas e desesperadoras que a mente humana adquire experiência real, supera limites, fica mais inteligente e finalmente se transforma no reduto de poderosas forças morais.
Portanto, no planeta Terra, o Bem não é apenas poesia ou ficção. Ele é uma realidade que está ligada às forças naturais de transformação que impulsionam os seres e as coisas rumo à perfeição. Já o mal é uma possibilidade momentânea de estagnação, pelas forças retrógradas, que trabalham em sentido contrário, mas sempre funcionando como suporte secundário de leis superiores. Por isso se diz que Deus escreve certo por linhas tortas. Sendo uma força de transformação, a prática do Bem gera mudanças em nosso mundo interior e no ambiente em que vivemos. Quando não conseguimos essa mudança de forma imediata, ainda assim entramos em processo íntimo de mudança, de ampliação do grau de consciência, mesmo porque o mal sempre nos causa uma incômoda dinâmica de insatisfação e infelicidade. Mesmo aqueles seres maus e intransigentes são marcados por essa insatisfação, feridos pelo espinho constante da consciência. Esse também é o motivo provável pelo qual muitas pessoas boas, inteligentes, cheias de vida e de futuro promissor, morrem ainda jovens e repentinamente. Muitos desses casos são pessoas que passam por experiências íntimas imperceptíveis aos olhos alheios e que atingem um grau de transformação suficiente numa existência, não necessitando mais conviver em ambientes atrasados e maléficos, a não ser que queiram, por questões pessoais ou de auxílio ao próximo.
Estando infelizes e insatisfeitos, geralmente procuramos uma mudança que possa alterar esse estado desagradável e que nos causa sentimentos negativos. Não estando conscientes dessa situação de mudança íntima, cedemos aos impulsos inferiores: pensamentos negativos, comentários maldosos, inveja, auto-destruição, etc, com se fosse um prazer emocional que nos faz suportar as situações difíceis. Mas é um prazer egoísta e solitário, que engana e agrava os sentimentos e emoções e só faz aumentar a insatisfação e sofrimento por estarmos numa condição espiritual inferior. Daí vem o pessimismo, a descrença no Bem e a supervalorização do mal. Na maioria das vezes só conseguimos reverter positivamente essa situação quando sofremos e derramamos lágrimas de reflexão. Afirmam os sábios que é preciso saber chorar e tirar proveito reflexivo das lágrimas. Assim evoluímos. Do contrário, o que sobra depois delas é o desencanto, a revolta, a sensação de impotência, fracasso e a estagnação. Aqui também, geralmente, se forma um círculo vicioso.

A Vida e as existências



“Aqui repousa, entregue aos vermes, o corpo de Benjamin Franklin, impressor, como a capa de um velho livro cujas folhas foram arrancadas, e cujo título e douração, apagados. Mas por isso o obra não ficará perdida, pois reaparecerá, como ele acreditava, em nova e melhor edição, revista e corrigida pelo autor”. Epitáfio gravado no túmulo, escrito pelo próprio Franklin.

A Humanidade vem se transformando desde os primórdios da pré-História, quando fomos adquirindo, gradualmente, os caracteres que nos diferencia das raças primatas que deram origem à espécie humana em nosso planeta. E continua em franca transformação. Estamos vivendo uma época de crises e mudanças rápidas em todos os setores sociais. Nunca a História registrou tantas descobertas tecnológicas, tantas modificações de crenças e hábitos, tudo acontecendo em períodos de tempo tão curtos, como as que vem ocorrendo nas últimas décadas. O Século XX passou rapidamente sob os nossos olhares e tal foi a velocidade das mudanças que nele ocorreram que ainda não demos conta de que a maioria nós nasceu e viveu no intervalo de tempo secular mais curto já ocorrido na cultura ocidental. E não foi apenas uma simples impressão de quem viveu num momento de transição, como nos séculos anteriores. Na verdade, todos sentimos que o tempo veio se acelerando numa velocidade espiral, provocando o desencadeamento de uma sucessão de rápidos acontecimentos. A sensação geral é a de que nossos corpos foram envelhecendo, enquanto a consciência permanecia estática e pasma, observando como as coisas surgiam e desapareciam.
Este é o choque existencial de todos aqueles que cultuam a idéia da Imortalidade e sofrem as imposições do tempo biológico, que se esvai indiferente pelas veredas dos dias e das horas aparentemente perdidas. Mas o que realmente vem mudando, a Vida ou as nossas existências? Ao que tudo indica, o ser humano ainda não adquiriu maturidade suficiente para compreender a Vida e por isso treina essa compreensão através das múltiplas existências. Quando observamos a Vida o fazemos sempre de maneira deformada, fragmentada pelas limitações dos nossos cinco sentidos. A Vida e a Verdade são coisas idênticas, mas ainda não conseguimos superar a observação dos aspectos parciais dos nossos interesses particulares. Para a maioria dos seres humanos a Vida não passa de uma diversidade de pontos de vista e estamos bem distante daquilo que se chama de realidade total e integral. Para compreendermos a Verdade total usamos a ferramenta do ponto de vista; para a Vida, usamos as experiências existenciais, sejam de curto prazo, através de fatos cotidianos, sejam através de prazos mais longos como as existências programadas. As mudanças de ponto de vista serão constantes, até que cesse a relatividade da nossa compreensão das coisas; as existências também se sucedem até que não haja mais necessidade de repetir experiências pelas quais já assimilamos sua essência. Todo mundo tem um problema existencial de referência principal para ser equacionado e cuja chave de resolução só pode ser aplicada numa experiência real, chocante, impactante. Quando passamos por experiências desse tipo ficamos profundamente traumatizados, tal é a carga de realidade que ela provoca em nosso mundo íntimo. Daí dá para entender porque ainda não temos maturidade intelectual e emocional para suportar toda a carga de realismo que caracteriza a Vida e a Verdade. Se em pequenas situações realistas sofremos abalos dolorosos, imagine se fôssemos mergulhados integralmente na Realidade Total. Seria um desastre colossal, talvez uma segunda morte.
Uma outra idéia que ajuda a compreender melhor essa diferença entre “existir e viver” é a concepção que temos de felicidade. Dos momentos felizes que experimentamos nas existências tiramos nossos pontos de vista sobre a felicidade. Se pudéssemos mergulhar na felicidade integral também sofreríamos um impacto inimaginável, uma situação de êxtase que para nós seria traumático e ao mesmo tempo desolador. Se fôssemos lançados num mundo feliz nos sentiríamos como peixes fora da água tentando respirar num ambiente que os nossos sentidos não conseguem assimilar.
A Verdade, a Vida e a Felicidade, são estados de espírito que exigem uma grande soma de experiências em todos os sentidos, sendo necessário que haja muitos pré-requisitos para que as coisas sejam integralmente compreendidas. É impossível atingirmos a Verdade se possuímos alguma deficiência de conhecimento racional e emocional; é impossível atingir a Felicidade se ainda carregamos deficiências nos sentimentos e emoções; impossível, portanto, compreender a Vida se não conseguimos assimilar a lógica e a funcionalidade das pequenas engrenagens e tramas das nossas existências. Como compreender a Vida se não compreendemos que a morte é uma transformação, se não assimilamos o que é a Imortalidade? Como compreender a Verdade se ainda não nos sentimos à vontade para encarar situações verdadeiras que nos deixam atordoados, sobretudo àquelas que se referem a nós mesmos? Como compreender a Felicidade se ainda temos dificuldade de aceitar a felicidade alheia e de partilhar a nossa com os outros?
Realmente, a Vida é única e imutável; existe desde sempre, como Deus. O que muda é o viver e o existir, atributo dado pelo Criador às suas criaturas para que um dia elas se reintegrem definitivamente na harmonia do Universo e da Criação. Parafraseando Edgard Armond, um sábio instrutor espiritual contemporâneo, “Não vivemos para solucionar os problemas do Universo, porque estes já estão solucionados desde sempre por Deus. Nosso problema é a questão evolutiva, o desenvolvimento do eu individual.”
Sendo uma só e sem interrupções, a Vida funciona sem as limitações do tempo, num plano absoluto da Criação, que é o Eterno, o que sempre foi e sempre será. É o mundo das causas, no plano Absoluto ou Divino da Criação. Já as existências, como as criaturas, são múltiplas e por isso sua experiências são constantemente delimitadas e reguladas pelo tempo, num plano relativo da Criação, que é o efêmero, o começo, o meio e o fim; nascimento, vida e morte. É o mundo dos efeitos, no plano relativo da manifestação. Seja nos mundos espirituais ou nos mundos materiais, cuja pluralidade cósmica é visível aos olhos nus, estamos sempre existindo, nascendo, morrendo e renascendo para a Vida Eterna, num constante movimento de descobertas e realizações. Portanto, não é somente o corpo que morre e volta na condição de energia para o fluido universal do qual foi extraído. O Ser, de certa forma, também sofre a transformação da morte e renasce na sua própria natureza interior, para que aprenda a reconhecer em si a próprio a Imortalidade da qual é dotado. Por isso renascemos da carne e do Espírito, como disse Jesus no seu misterioso e inesquecível encontro como sacerdote fariseu Nicodemos.
A principal marca existencial da espécie humana sempre foi a busca da auto-realização, de soluções para as nossas constantes crises vivenciais. Somos essencialmente insatisfeitos porque ainda estamos em processo de formação espiritual. Ainda não temos consciência plena do significado da Vida e das nossas existências. A maioria dos seres humanos ainda caminha em torno de um abismo, o nosso Ego, que nos impede de saltar dos limites das nossas existências para o terreno ilimitado da Vida. O abismo é tremendamente assustador e sua escuridão representa para uns o infinito, para outros, simplesmente, o nada e o fim. Por isso permanecemos divididos entre o ser e o não ser, uma dúvida também gerada pelo Ego e que sempre nos convida a recuar para o conforto do cordão umbilical. Temos medo de perder a individualidade que adquirimos recentemente, semelhante a uma criança que se apega egoisticamente a um brinquedo. Quando vislumbramos por alguns instantes as possibilidades do Infinito e do Eterno , logo perguntamos se vamos continuar sendo aquilo que somos hoje. Assim como tudo que é material se dissolve no oceano universal de átomos, elétrons e neutrons, por acaso os seres também não serão dissolvidos no oceano da consciência divina? Diante da dúvida do ser e do não ser, de dar um passo para o incerto, de corrermos o risco, quase sempre nos voltamos para o aspecto mais instintivo do nosso “Eu” e ali permanecemos isolados, numa espécie de autismo espiritual. Passar da existência para a Vida é saltar por cima desse abismo com a total confiança de que vamos encontrar aquilo que procuramos; é correr o risco de saltar no escuro. Nesse momento ninguém pode fazer nada por nós, pois esta é uma experiência exclusiva que coloca em prova a nossa individualidade diante da Criação. É nesse salto no escuro, do tudo ou nada, que descobriremos se Deus existe ou não existe, se somos ou não somos. São as eternas escolhas e conseqüentes decisões que sempre temos de tomar por conta própria.
A nossa trajetória tem sido também a da transformação individual e adaptação no espaço e no tempo, impulsionados por uma Lei maior que nos direciona ao encontro do Criador de nossas vidas. Esse percurso existencial, de auto-reconhecimento, se inicia nos Reinos Naturais dos planos densos da matéria e continua nos planos das energias sutis, em condições que ainda desconhecemos, mas que deduzimos ser um efeito espiritual das experiências que realizamos hoje e no passado. Nessa longa jornada, a espécie humana se posiciona fisiologicamente como o meio, uma transição entre a condição animal e o Espírito, que é o fim. O gênero humano seria então uma condição mutante entre os planos material e o espiritual, evoluindo gradualmente em várias etapas de aprendizagem, desde os primeiros lampejos da razão até o domínio completo das suas mais sofisticadas potencialidades. Em cada uma dessas fases desenvolvemos um modelo humano ideal a ser atingido, mas continuamos essencialmente incompletos e insatisfeitos, sempre à procura da plenitude da vida e da felicidade. Este percurso de incontáveis milênios representa o admirável processo de verticalização do corpo existencial (o físico e o espiritual), que é a consciência, uma transição das nossas experiências no mundo exterior dos reinos elementais da matéria densa, para o mundo interior do Reino de Deus, do Espírito. Nossa evolução espiritual vem acontecendo de maneira simultânea à espécie orgânica humana que nos abriga, até que ocorra a sua futura superação. Assim como superamos os nossos ancestrais símios, fomos também precedidos por inúmeras experiências orgânicas, permitidas pela combinação setenária dos quatro elementos (terra, ar, água e fogo) com os três reinos (vegetal, mineral, e animal).
Semelhante ao processo de gestação humana, de apenas alguns meses, em nossa gestação anímica, de milhões de anos, dormimos no Reino Mineral, sonhamos no Reino Vegetal e finalmente acordamos no Reino Animal. O despertar desse longo sono acontece exatamente quando nos tornamos humanos, o último elo que nos liga ao reino materiais. Isso vem acontecendo através de sucessivas crises, causando a transformação, muitas vezes violenta, do nosso universo interior e que nos planos físicos se manifestam através de dores e choques das mais diversas formas de vicissitudes.
Ao adquirirmos os cinco sentidos básicos do mundo material (tato, olfato, paladar, visão e audição) sabemos que ainda nos falta algo mais, o sexto e sétimo sentidos, que é o elo de ligação com o mundo espiritual. Simultaneamente, ao desenvolvermos as cinco inteligências básicas (cinestésico-corporal, espacial, lógico-matemática, verbal e musical), para solucionar problemas do mundo exterior, também sabemos que nos falta um complemento que integra todas elas e que nos torna mais aptos a compreender e solucionar os problemas do mundo interior. Daí a nossa busca atual pelo aperfeiçoamento das duas inteligências pessoais: a Interpessoal, que substitui a competição e estimula a cooperação e a harmonia com os outros seres; e a Intrapessoal, que elimina as reações defensivas da luta da personalidade com a individualidade, promovendo a harmonia do “Eu real” com o “Eu ideal”. Neste mesmo processo, as três vivências básicas da nossa mente ( pensamento, ação e sentimento), antes isoladas e em conflito entre si , agora se integram no seu funcionamento de experiências práticas com as experiências emocionais e intelectuais.
Para atingirmos esse grau de avanço e complexidade existencial tivemos que passar por inúmeras provas e reprovas que só a pluralidade das existências pode explicar. Foram milênios de luta para superarmos inúmeros obstáculos e acumularmos uma grande soma de conhecimentos. Que outro sentido teria então a recomendação do “Sede perfeitos” ? Poderíamos atingir a perfeição existindo uma só vez?

O Teatro do Ir e Vir

Numa visão mais ampla da Vida, podemos definir a trajetória humana como a caminhada do Homem em busca de si mesmo, num processo de aprendizagem para reverter o olhar direcionado para o mundo exterior, das aparências, e redirecioná-lo para o mundo interior, real, do “Conhece-te a ti mesmo”. Olhar para si mesmo pode parecer apenas uma fórmula filosófica, mas não é uma tarefa simples e mecânica. Para nós que ainda estamos mergulhados na infância espiritual, o mundo interno é um universo desconhecido e extremamente ameaçador. Trata-se de um território de aridez subjetiva onde enxergamos somente os incômodos problemas existenciais, que terão que ser solucionados, mais cedo ou mais tarde: os medos, as dúvidas, as incertezas, os traumas. Tudo aquilo do qual sempre estamos fugindo ou sabemos que certamente teremos de enfrentar um dia, fica escondido em nosso mundo interno a espera de atitudes e de decisões. Para suportar essa situação de impasse, quase sempre usamos máscaras e simulações que nos protegem das situações constrangedoras que geralmente revelam o que somos na realidade. Daí o motivo pelo qual quase sempre estamos com os interesses voltados para o mundo exterior, dos fenômenos e das sensações, que é o palco da nossa atuação parcial, portanto teatral da Vida. Se esse interesse pelo mundo exterior é o nosso vício, a nossa doença existencial, ele também é a nossa possibilidade de cura. É do veneno que se extrai o seu antídoto. É no mundo exterior que nos iludimos com as máscaras, mas também podemos interpretar com seriedade os mais variados papéis, treinando para a realidade total que ainda não temos coragem de enfrentar. Essa é a grande lição da Natureza, a qual não se pode enganar por muito tempo. Nas nossas farsantes encenações fugimos aqui, cortamos caminho ali, mas acolá ela nos cerca e cobra o que lhe é de direito. Cada existência é um auto-espetáculo no qual encarnamos um personagem que traz sempre na sua bagagem o conjunto de provas a que deve ser submetido; em cada ato, o personagem que escolhemos é testado no campo das competências, geralmente motivado por algum dano factual, sofrido numa circunstância aparentemente casual. O dono é a peça fundamental para que ingressemos da trama na qual estaremos inevitavelmente envolvidos; é a gota d’água.
É assim que, no enredo central das nossas existências, manifesta-se como característica marcante das nossas histórias pessoais a Lei da Polaridade. Ela é o principal agente regulador do equilíbrio da Vida e que, em nosso caso, dá o tom no qual teremos que nos harmonizar na prova existencial: a riqueza ou a pobreza, poder ou submissão, destaque ou o anonimato, saúde ou doença, alegria e tristeza, medo e coragem, amor e ódio, dinâmica ou tédio. Tudo isto compõe o interessante e progressivo jogo de circunstâncias entre a realização e frustração. Nesse jogo natural da transformação dolorosa dos pontos fracos em pontos fortes, no qual atualmente entramos pela livre escolha, existe um limite de memória, imposto pelo esquecimento provisório. A consciência da memória objetiva é suspensa para a realização do teste de atuação. Não foi por acaso que os gregos associaram essas realidades com a arte teatral e à sua riquíssima mitologia. Os teóricos da literatura também nunca deixaram de observar em seus estudos como os dramaturgos e comediantes combinam os elementos de suas tramas estabelecem o enredo de suas obras. Antes de entrarmos em cena escolhemos as provas a que seremos submetidos, porém somos avisados de que, ao adentrarmos no palco, não mais lembraremos objetivamente dessas escolhas feitas fora da situação de teste, sobretudo o dano factual que vamos sofrer, e que tais provas só terão validade no próprio campo de atuação. Essa é a regra básica do jogo. O palco ou campo de prova possui toda uma fenomenologia cenográfica composta de imagens aparentes, entrelaçadas pelas tramas do enredo da peça na qual ingressamos e na qual outros atores também estarão atuando em seus respectivos personagens. Para compreender a Vida na sua dimensão integral, os seres devem interagir entre si nas existências, para que ocorra uma soma de impressões parciais ou fragmentos de verdades de cada um rumo à compreensão total e única da Verdade. Nos cenários compostos de aparências e tramas situacionais, predomina sempre a idéia de Ilusão, pela qual somos constantemente envolvidos e seduzidos. A sedução, a mesma que atrai a abelha para a magia das cores e o perfume da flor, é sempre útil e necessária como perpetuação das oportunidades e ferramenta de avaliação educativa. Ela se apresenta em várias situações de teste nas quais temos que remover os obstáculos do percurso, tramas dos atos, até chegarmos no epílogo do drama ou da comédia que pedimos para atuar. É no epílogo que realizamos as escolhas essenciais, que serão computadas em nosso destino. Se superarmos os obstáculos, cuja tentação ilusória sempre se apresenta como uma possibilidade de fuga, seja pelo prazer ou pela busca de alívio de um sofrimento insuportável, ganhamos em nossa consciência valiosos aplausos ou pontos na experiência da vida, créditos indispensáveis na lenta composição da nossa felicidade. Se fracassarmos, sentimos de imediato o choque da Desilusão, um retorno ou efeito natural dos impulsos precipitados nos excessos cometidos durante a interpretação do papel. Mas a peça continua, pois as cenas vão se desenrolando, e novos atores vão ingressando em novos atos existenciais. O que acaba é a nossa atuação num determinado ato, cujo tempo fora previamente estabelecido. Ficamos temporariamente de fora, nos bastidores, em planos de espera, analisando o que foi feito, de bom ou de ruim, e também planejando como poderemos reentrar em cena para corrigir as falhas de interpretação cometidas nos atos passados. E, assim que observamos alguma situação favorável, solicitamos ao Supremo Roteirista da Vida um novo personagem, dotado de um programa existencial mais adequado aos novos testes, e que será novamente colocado em cena.

A Descoberta do Reino

Mas qual seria o significado de tudo isso que acabamos de refletir sobre as existências, a Vida, a Verdade e a Felicidade? Qual o sentido dessas diferenças, quase imperceptíveis para nós, seres comuns? Diríamos que é simplesmente reverter o nosso olhar do mundo exterior para o mundo interior. E falando assim, grosso modo, tem-se a impressão de que trata-se de uma simples mudança no direcionamento dos nossos interesses e das atitudes, como se isso fosse uma coisa banal e corriqueira. No entanto, o percurso entre a realidade aparente do mundo exterior e a realidade essencial do mundo interior, não acontece no intervalo da noite para o dia. É necessário que uma infinidade de existências se sucedam no tempo biológico para que o ser humano possa realizar a mais importante de todas as descobertas. Esta foi a mais longa das experiências que realizamos, sempre com o impulso da sabedoria e experiência dos grandes Mestres do mundo oculto.
Em todas as etapas da evolução humana, nas épocas cruciais de grandes transformações, surgiram no cenário carnal essas figuras incomuns, atores especiais, interpretando papéis extremamente contraditórios aos olhos da perspectiva mediana. Eles são seres dotados de um conhecimento extraordinário e sempre agem numa direção contrária a da maioria dos atores, que são atraídos para suas magníficas atuações sobre os problemas do Ser e do Destino. Ao entrarem em cena, logo se destacam como modelos irresistíveis de imitação, já que seus exemplos são sempre representações vivas do tempo futuro, do ser ideal, de como deveríamos ser. Exercem sobre nós um fascínio e um encanto que ultrapassam os limites da perplexidade, no qual somos bruscamente deslocados da cômoda posição de expectadores, sentados espiritualmente, para um incômodo posicionamento, em pé, porém estáticos ou oscilantes, à espera da difícil atitude de dar o primeiro passo na direção que nos apontam. Paralisados pelo medo e pela dúvida, nem sempre confiamos nos convites que eles nos fazem para que os sigamos pelos caminhos misteriosos de um novo “estado de coisas” de que tanto falam. Quando ouvem falar pela primeira vez dessa nova realidade a maioria dos seres humanos logo pensam na morte, a principal preocupação daqueles que ainda são governados pelas sensações do corpo físico. Para quem ainda não distingue o “Eu” dos limites orgânicos, a morte é única possibilidade de ingressarmos ou sermos recusados no tempo futuro. Não é por outro motivo que os grandes Mestres do Espírito, ao ensinarem os primeiros segredos do mundo oculto da individualidade, sempre revelam antes a idéia primordial de Imortalidade. Primeiro removem das nossas mentes o receio da morte do corpo, mostrando que ela é apenas o fim da existência e não da Vida; somente depois de compreendermos essa primeira verdade é que tocam no assunto da “morte” do espírito, que é, na realidade, o autêntico significado da ressurreição da alma. Ao ouvir de Jesus que renascemos da carne e do Espírito, Nicodemos estava sendo duplamente iniciado no conhecimento da Imortalidade da alma, pelo renascimento exterior, em novo corpo, e na imortalidade do Espírito, renascimento interior, pela ressurreição. Ao mergulharmos na carne ingressamos em um novo ato existencial no qual vamos atuar e experimentar as lições vivenciais, pelas provas e expiações. É nessa nova experiência existencial, que pode e deve ser repetida, quantas vezes for necessária, que despertamos ou ressurgimos para a Vida. O percurso entre uma existência e outra é sempre delimitado pela morte e o conseqüente renascimento; já o percurso entre a perspectiva do mundo exterior para o mundo interior será sempre uma crise existencial, que é a morte do Espírito, e a sua conseqüente ressurreição. Essa é a Verdade situada sabiamente por Jesus e por muitos outros mestres entre o Caminho e a Vida. As existências e renascimentos são os meios naturais para se atingir a finalidade essencial da Vida, que é o estado eterno da ressurreição. Tudo indica que na caminhada evolutiva os renascimentos cessem à medida que diminui para nós a necessidade de atuações existenciais de aprendizagem. Passamos, então, a perceber melhor a diferença entre a existência e a Vida, o existir e o viver, entre o efêmero e o Eterno. É bem possível que a Ressurreição nunca cesse, num infinito processo de descobertas das maravilhas do Reino, que é Deus, “vindo a nós”, se revelando progressivamente em nosso mundo íntimo.

Quinta-feira, Fevereiro 21, 2008

A Verticalização da Consciência


O chamado pecado original que nos acompanha como herança de Adão é o conflito da razão com o instinto, essa força inspiradora que mais tarde será transformada definitivamente em intuição, o sexto sentido. Como bem observou o educador Huberto Rohden, o homem é o único animal cuja espinha dorsal é natural e permanentemente vertical, como se a nossa cabeça estivesse sempre voltada para o alto, como uma antena que sintoniza as vibrações dos mundos superiores. Enquanto os corpos dos animais irracionais permanecem horizontais, ligados ao mundo físico, da lei da gravidade, o nosso corpo obedece o impulso da evolução e se levanta para captar novas experiências de racionalidade e espiritualidade. Esse corpo vertical, que assume a forma de uma cruz quando abrimos os braços, torna-se o símbolo vivo do sacrifício, da renúncia e do amor ao próximo.

Ainda sofremos muito a interferência instintiva, a busca constante da satisfação das nossas necessidades mais fundamentais. Essa busca, que nos fez caçadores das coisas do mundo físico e material, nos faz agora caçadores de nós mesmos, das coisas do mundo íntimo e espiritual. Essa é a equação existencial que temos que solucionar para superar o Homem do Passado, que luta para sobreviver em nosso ser, e continuar a nossa caminhada para deixar nascer em nós o Homem do Futuro.

Mas que homem é esse? Seria um tipo especial e definitivo? Acreditamos que não seja um modelo definitivo, mas um modelo adequado ao nosso tempo histórico. Numa perspectiva antropológica essa transformação da consciência humana. Mostra as etapas evolutivas, em cada qual predominou ou manifestou-se um protótipo mental característico, e dos quais herdamos as experiências mais significativas que resultaram naquilo que somos hoje e naquilo que podemos ser num futuro não muito distante. Então, do ponto vista antropológico teríamos esses oitos tipos culturais:

O Homem Biológico: É o Homo Sapiens Sapiens ou Homem de Cro-Magnon, do período paleolítico, surgido cerca de 35 mil anos A.C. “Uma era de pequenos grupos esparsos e nômades de hominídeos, vagueando em áreas relativamente extensas, constantemente preocupados em satisfazer a fome”. É a raça adâmica ( de Adão), que habitas as cavernas, descobridora do fogo e dos primeiros instrumentos de transformação da natureza. Deu seus primeiros passos no Homo Erectus (500 mil AC), passou pelo Homo Neandertal ou Sapiens (150 mil AC) até chegar no estágio biológico atual.

O Homem Tribal: Esse Adão era gregário, sedentário, o descobridor da agricultura e da domesticação de animais e construtor das primeiras aldeias. Era princípio da sociedade organizada (entre 9 e 7 mil AC).

O Homem Anímico: Esse Adão já está pré-civilizado,ou seja, está entre o mundo das aldeias tribais e as primeiras civilizações do IV milênio AC. É a chamada proto –história, na qual o homem manifesta sua curiosidade pelo fenômenos naturais e passa a ter com eles um relacionamento místico. Tudo que não pode ser explicado pela razão é da esfera do sobrenatural. O mundo é mágico e o politeísmo religioso e suas magias marcam essa fase anímica.

O Homem Teológico: É o homem das civilizações históricas e teocráticas do Crescente Fértil : Egito, Palestina e Mesopotâmia ( a partir de 3.500 AC). A crença religiosa passa a ser objeto de dominação política (Estados teocráticos) e o misticismo é formalizado como prática ritual . A magia e o sobrenatural passam a ser conhecimento de domínio de especialistas ou sacerdotes.

O Homem Racional : É a expressão do individualismo greco-romano. Aqui o homem racionaliza todos os seus hábitos pessoais e sociais, inclusive a religião. A mitologia greco-romana é um exemplo dessa tentativa de explicar racionalmente o mundo e seus mistérios através de símbolos e analogias. O homem quer entender como funciona o seu ser e porque somente ele tem consciência de si mesmo. A Filosofia, com Sócrates, Platão e Aristóteles será o resultado mais aperfeiçoado desse esforço.

O Homem Metafísico: Nessa era pré-científica, logo após a Idade Média e do retrocesso ao tempo teológico imposto pela Igreja, o homem do Renascimento também sente a necessidade de retomar sua trajetória voltando na fase que havia estacionado com a queda de Roma. A razão tomas rumos científicos nos séculos XVI e XVII com Descartes, Newton e Bacon. Pensar é existir e o sentido dessa existência por ser encontrado na experiência empírica, na prática pré-científica.

O Homem Positivo: É o homem da Revolução Industrial e da Revolução Francesa. A prática pré-científica chega à fase científica, onde as experiências podem ser comprovadas pela tecnologia. O Iluminismo filosófico e o positivismo científico dão novas direções para a mente humana. É nessa fase que surge os preparativos para a fase que estamos vivendo hoje.

O Homem Psicológico: Segundo Herculano Pires, trata-se de “um ser potencialmente tridimensional, cuja razão se fecha nas categorias decorrentes da experiência sensorial. O Homem-psi corresponde a um novo conceito de razão e da mente que surge uma nova dimensão com a descoberta da percepção extra-sensorial. Trata-se de uma verdadeira ampliação do conceito do homem, que retorna às dimensões espirituais antigas, enriquecido com as provas científicas, e por isso mesmo liberto da ganga das supertições, do misticismo dogmático e do pensamento mágico”. Essa fase nasceu da explosão dos fenômenos mediúnicos e com a Codificação do Espiritismo, em 1857, com a publicação de O Livro dos Espíritos. Inaugurava-se a “Era do Espírito” que seria complementada com a revolução psicanalítica de Sigmund Freud, no início do século XX, até chegar na psicologia humanista de Carl Rogers. A harmonia da mediunidade com a psicologia, entre o fenômeno e o comportamento, a técnica e a atitude, será síntese do Homem do Futuro.

Mas ponto de vista espiritual, essas etapas evolutivas seriam marcadas pelos protótipos, cuja influência cultural não se restringe à cultura material , mas também às experiências pré-encarnatórias:

O Primeiro Ser - BIOLÓGICO

· Domínio da inteligência cinestésico-corporal. Predomínio dos instintos e dos desejos. Vive o tempo imediato e presente. Preocupação com a sobrevivência do corpo e busca de entendimento do mundo fenomenal exterior.Religiosidade natural exterior e mágica.

· 1ª fase do tornar-se Pessoa: Bloqueio e recusa à comunicação. Tendência a alienação.

· Reminiscência atual: Por que estou assim?

O Segundo Ser – TEOLÓGICO - Domínio da inteligência espacial e lingüística. Despertar da intuição e das aspirações do tempo futuro. Religiosidade ritualística exterior. Preocupação com a sobrevivência da alma e o medo da morte.

· 2ª fase: Início da comunicação e do desejo de mudança. Não reconhece os sentimentos e emoções.

· Reminiscência: O que estou sentindo?

O Terceiro Ser – RACIONAL - Domínio das inteligências lógico-matemática. A crise existencial e a busca filosófica do sentido existencial exterior. A Razão supera e inibe a emoção. Religiosidade narcísica e antropomórfica.

· 3ª fase: Aceitação reduzida de sentimentos.

· Reminiscência: Qual a origem desse sentimento?

O Quarto Ser - METAFÍSICO - Domínio da inteligência musical. A percepção da realidade extra-física e do sexto sentido. Crise existencial e a busca da realidade existencial interior. Tendência de equilíbrio razão e emoção. Religiosidade mística e sobrenatural.

· 4ª fase: Contextualização dos sentimentos. Despertar da consciência integral.

· Reminiscência: Que razões me levaram a este estado?

O Quinto Ser – POSITIVO - O domínio da inteligência interpessoal e dos conhecimentos tecno-científico dos fenômenos físicos exteriores. Crise existencial (afirmação e negação da mente) e a busca sistemática de soluções lógicas e psicológicas. Maturação da consciência integral. Conflito interior entre a religiosidade e a racionalidade. Busca de harmonia entre a física e metafísica.

· 5ª fase: Diálogo mais livre e desbloqueio da comunicação.

· Reminiscência: Que conseqüências tais sentimentos estão gerando em mim?

O Sexto Ser - PSICOLÓGICO - O domínio da inteligência intrapessoal e dos conhecimentos tecno-científicos dos fenômenos metafísicos interiores. Funcionamento da consciência integral e tendência a plenitude existencial. Harmonia entre a física e metafísica. Religiosidade interior voltada para soluções exteriores, solidariedade social.

· 6ª fase: Aceitação e experimentação mais imediata dos sentimentos.

· Reminiscência: Por onde posso começar a mudar a situação?

O SÉTIMO SER – CÓSMICO E INTEGRAL - Domínio da inteligência e da consciência integral. A plenitude vivencial. Religiosidade natural interior e mística.

· 7ª fase: Confiança total na transformação pessoal, disposição espontânea de diálogo e de comunicação. Auto-aceitação.

· Reminiscência: Qual é o ponto essencial da mudança?

A verticalização do corpo humano coincide com o despertar das faculdades psíquicas; são elas que permitem ao homem a sintonia com os planos superiores da vida, que lhe dão os rumos de existência. A mediunidade como instrumento e extensão mental, torna-se uma bússola existencial para que o homem aos supere os instintos e domine a intuição. Ela também vai marcar a transição mental do mundo sensorial para o mundo extra-sensorial, do mundo exterior e físico para o mundo interior e espiritual. Ela quase sempre foi o recurso pelo qual os Espíritos Superiores puderam interferir em nosso planeta para garantir a evolução da sociedade humana. Foi assim que aprendemos a dominar a natureza e seus elementos e tem sido assim até nos mais avançados laboratórios do mundo contemporâneo, onde sempre se realiza o estreito contato entre os gênios desencarnados inspirando os gênios encarnados nas descobertas fundamentais das ciências e das artes. A mediunidade, embora mal conhecida nos tempos remotos, não sofreu em si mudanças na sua fenomenologia, manifestou-se no homem da cavernas, nos clãs e tribos da proto história, nos círculos sacerdotais fechados das sociedades teológicas até ser “derramada na carne” das camadas populares, como garantia de uso aberto e de livre acesso ao Mundo Superior. A história da mediunidade é vasta e ficaríamos paginas e páginas citando seus inúmeros exemplos nos registros de todos os povos, em todos os tempos. Mas não podemos deixar de concluir é que essa faculdade, tanto na sua manifestação natural como seu caráter de prova, é o instrumento principal de que dispomos para desenvolver as características do Homem do Futuro. Sendo cada vez mais um tipo de habilidade espiritual, ela é em sim uma forma de inteligência pessoal, as chaves que abrem gradualmente as portas do universo interior.

É fato inegável, estamos passando por uma crise existencial que marca em nós a mudança de percepção do mundo exterior para o mundo interior. O que caracteriza essa crise é essa descoberta, que nos causa um impacto em todo o nosso conjunto vivencial: na mente, no perispírito e também no corpo físico. Nossas percepções, sensações e sentidos físicos sofrem um abalo estrutural no qual estávamos acomodados e passam a exigir de nós uma reestruturação para uma nova acomodação. Já passamos por esse abalo quando, ainda no mundo animal, descobrimos a razão. Essa descoberta do mundo interno foi sendo feita de maneira gradual e sempre esteve relacionada ao nosso grau de consciência nas vivências do mundo físico e, em muitos casos, ao grau de mediunidade. Esse impacto é também semelhante ao que sofre as crianças quando saem do universo concreto e descobrem o mundo abstrato durante o processo de alfabetização.

Quando sofremos este abalo vivencial na descoberta da razão tivemos que fazer uma troca de valores materiais por valores morais; fomos progredindo lentamente na descoberta desse mundo interno. Primeiro descobríamos um pedaço de pão e, pela operação instintiva saciamos imediatamente a nossa fome; depois, descobrimos um outro pedaço de pão e, racional e economicamente, o dividimos em um número de pedaços igual ao número de dias que demoraríamos para encontrar outro pedaço de pão; administraríamos a necessidade de saciar a fome; agora encontramos um pedaço de pão, olhamos para todos os lados, queremos comê-lo de uma só vez, pensamos em guardar para os próximos dias , mas estamos sendo incomodados por um novo fator: a consciência. Com novos e sempre incômodos valores, a consciência nos força a olhar novamente para todos os lados e enxergar que outros seres estão sem o pão. Aí está a crise: comer tudo num dia só, cortar e, ainda sozinho, comer um pedaço a cada dia, ou repartir aquele pedaço com os que não tem nenhum? Nas duas primeiras opções ainda estamos vendo pela ótica racional do mundo exterior, enquanto que na última já vislumbramos o mundo interior. Repartir o pão com o outro é uma operação que supera a vivência racional e atinge a vivência emocional e interior.

Quando operamos além do instinto e da razão geralmente lidamos com outros instrumentos cognitivos, diferentes do cálculo ou da agilidade física. Passamos usar instrumentos cognitivos espirituais, inter e intrapessoais. Esses instrumentos se caracterizam pelos valores morais, negativos e positivos que aprendemos culturalmente. Com eles estabelecemos julgamentos nos quais usamos como referência, para comparação, outros seres humanos. Geralmente, nessas operações, quando desprezamos os fatores instintivo e racional, nos colocamos sempre no lugar do outro e tentamos imaginar, em questão de segundos, como reagiríamos naquela situação. Essa forma de inteligência é chamada de empatia, um aprofundamento da simpatia, porque não é um sentimento unilateral, mas recíproco: um precisa e o outro dispõe. Quanto maior a nossa capacidade de empatia, maior será a nossa capacidade de penetrar em nosso mundo interior, sem sofrimentos ou traumas. A melhor forma de tentar penetrar e compreender em nosso mundo íntimo é tentar respeitar, aceitar e compreender o mundo íntimo do outro. O nosso mundo íntimo está fechado desde que fomos criados; é um mistério, uma porta cuja chave e segredo sempre está com o nosso semelhante e nunca conosco; isso é proposital na sabedoria da Criação, pois se estivesse conosco talvez já teríamos perdido pela indiferença ou pela ferrugem do egoísmo. Quando odiamos um semelhante o nosso mundo fica cada vez mais fechado em nós e aberto, exteriorizado para o grosseiro mundo material; nele se manifesta com mais dureza e rigor a lei de ação e reação, voltando para nós a mesma carga energética negativa. Já quando o amamos vai se tornando cada vez mais interiorizado e a mesma lei se manifesta de forma mais suave e branda; então os enigmas são decifrados, os mistérios são revelados e, dentro de nós, as portas se abrem. Quando entramos, sentimos uma sensação diferente e muitíssimo agradável, que é a felicidade. Isso é o Reino de Deus. Essa era a missão de Jesus. Ele veio “demonstrar” com exemplos o que outros mestres tinham apenas “mostrado” com teorias esse percurso da descoberta do mundo interior. Primeiro dava o exemplo; nossas cabeças ficam um pouco confusas com esses exemplos; para espantar a confusão e aquietar o nosso ser , Jesus contava uma parábola. Como sabemos, todas elas revelam a chave do Reino de Deus; todas elas representam do fim da nossa atual crise existencial. Foi exatamente por isso que Ele disse, como muita propriedade, que era o Caminho, a Verdade e a Vida e que ninguém iria ao Pai senão por ele.